31 outubro 2006

Aonde estão as flores da sua cabeça?


Esse título (apesar do pequeno equívoco, pois o correto seria “onde”.. mas vá lá.. licença poética pra tudo nesse mundo) é de uma música chamada As Flores, composição de Ortinho e Lula Côrtes (dois doidões de plantão), que está no disco Somos, do Ortinho. Ela embelezou minha madrugada de ontem/hoje ao chegar do jantar da casa de Filipe BB (o moço “verbete-mamute”).

Eu já tinha ouvido a canção certa vez no Abril Pro Rock do ano passado, numa versão bem rock’n’roll, cantada por Daniel Belleza & os Corações em Fúria (uma das pouquíssimas bandas que me agrada em relação ao rock brasileiro de hoje em dia), com participação do supracitado Ortinho, num modelito impagável e numa performance bárbara. Quem viu, viu. Aliás, essa música também foi gravada pelo próprio Daniel Belleza.

Essa versão cantada por Ortinho é suave (apesar da aspereza da voz do cidadão), repleta de uma lúdica sensação, tão poética como um belíssimo arranjo de flores sobre sua mesa (ou mesmo sobre sua cabeça). Um arranjo simples (e por isso bastante bonito), com violão, bandolim, flauta, etc e tal. Apesar de a letra parecer denotar uma aparente tristeza, me parece bem viva, de natureza sutil e sorridente. Portanto, peço a todos que nunca esqueçam, por favor, de regar as tão belas flores de suas cabeças.

Quem quiser baixar a música, clica nesse link aqui: http://rapidshare.com/files/1464291/08._Ortinho_-_As_Flores.mp3.html

(instruções: ao abrir a janela, desça um pouco a tela, clique em "Free" - que estará no canto inferior direito de uma tabela - , depois que abrir outra janela, começará uma contagem regressiva; ao término dessa contagem, aparecerá um código de três caracteres, para confirmar o download. É só digitar o código, e mandar ver; escolher o lugar pra salvar a música e pronto. Basta aguardar a conclusão do download).

Aí vai a letra:

AS FLORES
Ortinho/Lula Côrtes

Aonde estão as flores
Da sua cabeça?

Murcharam, secaram
Só restaram os caules e espinhos
Ressecados de tristeza

Estão em qualquer vaso
Jogado, rachado, quebrado
Enfeitando qualquer mesa

Estão nos arranjos
Mandados, estão estampadas
Na blusa que você me deu

E lá permanecem bem vivas
E tão coloridas
Só que você esqueceu

...

A 85% de sexo. Lascívia. Tesão. Libido. Vontade. Desejo. Paixão.

Ando explodindo muito de tudo isso. Por quem? (alguém pode perguntar, creio eu). E respondo: apenas pela vida (se é que alguém esperava por uma resposta menos abstrata). Ouvindo a música supracitada e me vendo hoje em dia (no meio de um turbilhão de emoções, sensações, mudanças) é como se eu quisesse ver todas essas flores, com uma vontade intensa de tocá-las, todas, cheirá-las, espalhá-las pelas ruas e costurá-las em todas as minha roupas. As flores de hoje em dia estão secando (queixa antiga minha). Eu não caibo mais em mim. Sentir demais pode se tornar perigoso. E na impossibilidade de atingir um grau de emoção tão intenso o quanto desejo (por “n” fatores “humanos”), passo a aderir ao freqüente entorpecimento (via substâncias insólitas). Isso às vezes chega a me dar ápices e picos de sensações magníficas, como ver, cheirar, sentir e ouvir tudo muito mais amplo e mais próximo a (ou dentro de) mim. Vontade de abraçar o mundo.

Nas duas últimas semanas isso foi bem intenso. Tanto que o organismo pediu arrego algumas vezes. Mas na última sexta foi muito bom, interessante (apesar do início de uma sensação fortemente depressiva no dia seguinte). Um show de Nando Reis, resolvido de última hora (e que sempre acho fantástico, muito alto astral), e em boas companhias: meu primo Fábio (que também resolveu ir nos 45 minutos do 2.º tempo), Luciana (muito lindo vê-la) e Carol Alvim (ambas ex-companheiras de faculdade). Depois dos shows, ida ao Garagem (reduto “pseudo-cóco-punk-indie-chic” de Recife). E vendo mais gente por lá: Juliano Muta, Júnior Aguiar (depois de ver essa duas figuras, eu creio piamente que a arte e a beleza da arte estão impregnadas e espalhadas por todos os cantos dessa cidade, até mesmo no Garagem, purificando-o de visceralidade, pois isso é preciso).

POR FALAR NISSO: Quero aqui fazer uma campanha para localizar uma pessoa. Durante o intervalo dos shows de Nando Reis e Cheiro de Amor (nem me crucifiquem os “intelectuóides”.. hahahahaha.. até porque eu já estava tão louco nesse show que nem prestei atenção.. só lembro que tinha muita gente tocando no palco..).. mas voltando: no intervalo entre esses shows, surgiu uma moça que veio me cumprimentar por este blog que vocês estão a ler nesse momento. Ela me falou que descobriu o blog por intermédio de alguém que eu conheço (mas não lembro o nome da pessoa que ela falou). Ela elogiou e tal (Luciana até brincou comigo, disse que era uma “fã” minha e tal). Gostaria muito de localizar essa cidadã, para poder trocar idéias (não me levem a mal, por favor.. ando precisando entrar em contato com os seres humanos, com mais deles..). Então, se a própria estiver lendo isso aqui, se identifique, deixe algum contato (me perdoa, moça.. eu estava tão louco que nem lembro o nome nem nada.. ).. ou se alguém tiver conhecimento de quem ela é, me avisa.

DETALHE: Continuarei essa campanha de busca a cada post meu ou até que eu me canse de fazê-lo.. hahahahahahaha..

E eu continuo a perguntar: Aonde estão as flores de vossas cabeças?

(ouvindo As Flores, by Ortinho).

27 outubro 2006

A Banda Tropicalista do Duprat

"porque é made, made, made.. made in brazil" (Tom Zé)

a banda era boa
com duprat na batuta
; que tropicália era essa?
eram hippies orquestrações
& intermezzos
dissonâncias “pop-cretas”
e antropofágicas disjunções
de um Brasil semi-analfabeto
, ingenuamente cosmopolita
& mais que tudo isso:
era subverter-se em notas, acordes
rock’n’bossa’n’roll e baiões,
frevos na ponta dos dedos
e toda aquela parafernália
que se chamava
aquela banda
de beatles e de pifes
de cacos e "descanções"
da menina ruiva (os meninos de mutações),
à black power
do magricelo
ao tabaréu
e também do pretinho
todos tocavam chiclete com banana
na banda, aquela,
a tropicalista,
sob a batuta
do duprat.

(eu quero bem mais peidos alucinógenos)


Texto em homenagem ao maestro tropicalista, Rogério Duprat, falecido ontem (26/10), em São Paulo, aos 74 anos.


Matéria da UOL a respeito do falecimentro de Duprat:

Morreu por volta das 17h desta quinta-feira (26), em São Paulo, o maestro Rogério Duprat. O músico de 74 anos estava internado desde o dia 10 de outubro no hospital Premier, na zona sul de São Paulo, onde recebia cuidados paliativos.

Duprat sofria do mal de Alzheimer e também tinha câncer na bexiga, que nos últimos dias acabou causando insuficiência renal, de acordo com a médica Maria Goretti Maciel, diretora clínica do hospital.

O maestro será velado no Museu da Imagem e do Som (MIS), na região dos Jardins. Seu corpo será cremado na sexta-feira no crematório da Vila Alpina, zona leste de São Paulo.

Duprat é conhecido principalmente por seu trabalho nas orquestrações do disco Tropicália, de 1968, que contava com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Os Mutantes e Nara Leão.

Nascido no Rio de Janeiro em 1932, Duprat mudou-se para São Paulo em 1955. Ainda jovem estudou violão e cavaquinho além de tocar gaita. Mais tarde entrou no meio erudito e foi um dos fundadores da Orquestra de Câmara de São Paulo. Nos anos 60, o maestro se aproximou de artistas populares, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, para quem compôs o arranjo da música "Domingo no Parque".

Também trabalhou com nomes como Chico Buarque e Jorge Ben Jor, mas uma de suas parcerias mais conhecidas foi com a banda Os Mutantes, para quem arranjou diversos discos.

Depois de um período longe da música, devido a problemas de audição, o maestro voltou a trabalhar com arranjos na década de 90.

Música Nova

Ideólogo responsável por um dos poucos manifestos musicais autênticos realizados na América Latina, Rogério Duprat utilizou métodos radicais para criar uma nova frente cultural no país. O movimento batizado como "Música Nova Brasileira" resgatava os ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 e pretendia "internacionalizar a vanguarda brasileira". Duprat vinha acompanhado pelos músicos intelectuais Gilberto Mendes, Júlio Medaglia, Régis Duprat, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen.

"Sem forma revolucionária não há arte revolucionária" é a citação que termina o manifesto publicado em 1963. Desde então eles se empenharam em quebrar as amarras acadêmicas na cultura e unir o erudito ao popular, como Duprat fez durante sua vida, o que fez dele um dos principais personagens da MPB.

(ouvindo Canção para Inglês ver/Chiquita Bacana, by A Banda Tropicalista do Duprat, com Os Mutantes)

23 outubro 2006

Quanto amor... quanta dor...

"deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que todo revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor " (Che Guevara)

Apaixono-me pelo que há lá dentro das pessoas...
Pela menor partícula de coisas lindas que nelas possam habitar...
Pela sutil camada de beleza delas (mesmo que tragada, esquartejada, jogada às traças, pelos seu próprios possuidores, por medo, indecisão, defesa ou mesmo desamor)...
Pelas suas palavras, pelos seus gestos, que fazem voltas, giram, rodopiam,
Desenham no vento, exalam perfumes, me absorvem
Apaixono-me pelas pessoas de forma a querer tudo e mais um pouco
Não me contentando com migalhas, com pequeníssimas coisículas
Seus sorrisos me seduzem, abraços e toques me deixam em pleno êxtase
Vivas! Vivas! Vivas!
Tudo assim, pipocando dentro do peito, latejando, ardendo
Queimando, se espalhando, da cabeça aos pés, do corpo à alma
E não precisa de muito tempo... o estalo é repentino...
Chega, se instala e se debate, de inquietude e ansiedade
Em mim é certeiro, violento, agressivo, visceral
Toma-me de rompantes, de poesia querendo se lançar, se jogar,
Sem medir conseqüências, querendo apenas externar-se
Desejo profundo, íntimo, terno, amoroso
Pra mim, é tudo muito normal
Mas o mundo está se esvaziando disso
Perdendo a respiração, o fôlego, não inflama mais
As pessoas estão ficando em preto-e-branco-e-cinza
E o vazio vai tomando forma
Forma de absolutamente tudo, preenchido por uma imensidão de nada
Fui aprendendo aos poucos, aos pouquinhos...
Fui sendo catequizado, devagarzinho, a habitar nesse mundo de sentimentos pequeninos
De gente miúda, que não rima, que não se destina, que se enche de empáfia
Que age agressivamente com a vida, que não ama, que não vê em nada a poesia
Parte de uma funcionalidade anestésica,
Que só tem como função primordial manter o ritmo da máquina
A máquina fria, objetiva, incisiva, pragmática
Eu quero mais é me arriscar, é a vida inteira,
Lambuzar-me completamente do seu mel, e do seu féu
Intervir em suas possibilidades, coexistir em todas elas
Só assim a vida vale a pena
Porém, sinto-me vítima de um certo deslocamento temporal da sensibilidade que trago em mim, na sua relação com os outros
Essa minha urgência em viver, essa minha vontade de tê-la por inteiro, a vida
Acaba me colocando em desaviso a respeito das malícias humanas,
Mesmo das malícias naturais, ingênuas, involuntárias
Mas, mesmo assim, malícias
Dessas que te deixam só, chorando ao ir dormir,
Encharcando o travesseiro...
O tanto que isso já me foi comum,
Amargor sem fim, que vai possuindo a alma, o coração
E mesmo tendo como vontade imperativa o amar,
O “desamar”, o desrespeito à condição humana desfere golpes violentos
Consolida marcas, cicatrizes horrendas,
E vai corroendo devagarzinho cada milímetro do que ainda resiste
Como forma essencial de amor...
O mundo está se esvaziando,
as pessoas também
E isso dói.

11 outubro 2006

Parabéns, voinho!!!


“veja que beleza, em diversas cores.. veja que beleza.. em vários sabores, a burrice está na mesa (...)” (Tom Zé)

Tropicalista cuca boa e nova!!!

Salves, salves, salves!!!

Começamos hoje uma quarta-feira muito mais feliz, muito mais interessante para a música brasileira. Hoje, 11 de outubro, é aniversário de 70 anos de Antônio José Santana Martins, ou Tom Zé, como é conhecido no Brasil desde 1968, quando lançou-se de vez no mercado fonográfico brasileiro.

Confesso-me estar um pouco tenso ao escrever alguma coisa sobre este cidadão, uma das maiores (se não a maior) referência musical de criatividade, singularidade, genialidade, inventividade, irreverência, rebeldia e outros adjetivos mais que temos no Brasil. É uma responsabilidade muito grande, e creio também ser muito complexo, conseguir definir da forma mais adequada este baiano de Irará, que conseguiu transformar rapadura, farinha, seca e agrura em matéria-prima substanciosa para uma das músicas mais cosmopolitas e inteligentes de que se tem conhecimento hoje em dia.

Não é todo o dia que um senhor de 70 anos faz uma participação no novo CD do grupo Cake, ou já fez um show com o grupo Tortoise.

Tom Zé foi um dos alicerces fundamentais para o surgimento da Tropicália. Porém, foi ele o mais outsider do grupo. Porém, não no sentido de estar por fora, e sim de estar correndo por fora, por ser ele dotado de uma singularidade tamanha que chegou a ser (e ainda o é) o mais tropicalista de todos, no cerne da rebeldia que aquilo poderia significar, e o menos tropicalista deles, pois optou por seguir o sentido contrário da corrente, que era o da popularização/massificação e facilidade totais; ele seguiu um caminho não percorrido, tornando-se uma bela e inspirada aberração construída e edificada dentro das próprias deficiências (como ele próprio define), transformando-as em grandes idéias, em grandes obras, capazes de sair das amarras de qualquer convenção, conceito e definição, conservando ao longo de todos esses 70 anos um vigor infantil, uma rebeldia adolescente (sempre indignação) e uma sabedoria que a idade e a experiência de vida lhe puderam conferir.

Tom Zé disse que sua primeira experiência musical foi ao tentar tocar violão e cantar para uma moça, ainda em Irará, na juventude. Disse que foi traumatizante. Um bloqueio, uma travação o deixaram totalmente inerte, apático, entalado. Nunca teve beleza, talento para tocar ou voz bonita para ser consagrado como um grande cantor, daqueles que encantam belas moças. Foi daí que partiu para seguir o caminho de desconstruir-se e utilizar com destreza, vontade, inteligência e sensibilidade tudo o que poderia se tornar um obstáculo para seu progresso, usando a seu favor. E me parece que deu certo.

Estreou para o público brasileiro no IV Festival de MPB da TV Record, em 1968, cantando a música campeã São, São Paulo, meu Amor, de sua autoria.

Daí pra frente fez discos memoráveis, como Todos os Olhos (cuja capa era um ânus, com uma bola de gude introduzida, isso em pleno governo Médici, 1973) e Estudando o Samba, em 1976.

Apesar da inconteste genialidade, da metade dos anos 70 até o final dos anos 80, Tom Zé entra para o ostracismo, longo e doloroso, que duraria 17 anos de esquecimento e tristeza, para um artista que sempre viveu do exercitar de sua mente irrequieta (durante esse período, gravou, em 1986, um disco genialíssimo, chamado Nave Maria).

Foi redescoberto, já desenganado e quase que abandonando de vez o ofício, por David Byrne (ex-Talking Heads). É através do selo Luaka Bop, de David Byrne, que é lançado, em 1990, nos E.U.A., The Best of Tom Zé (ou "Tãn Zi", como é chamado lá), uma coletânea de sua obra. A partir daí passou a ser aclamado pela crítica ianque. Inclusive ganha um prêmio chamado “Prêmio de Criatividade”, em Colorado, do qual participam músicos eruditos e/ou de vanguarda do mundo todo.

No ano seguinte, grava o excelente The Hips of Tradition.

Em 1999, é consagrado pelo público brasileiro (e jovem) no Abril pro Rock, onde ele diz ter nascido novamente.

Em 2001, lança Jogos de Armar. Sempre inovando, traz dois CDs, um contendo as músicas, e o outro com fragmentos das músicas, espalhados, separados, sugerindo ao público que remonte esses pedaços e construa novas músicas, podendo se tornar, assim, um parceiro de Tom Zé.

Em 2002, três anos depois de ter renascido, no mesmo Abril pro Rock ele quase morre, ao ter um infarto após o seu show (eu estava presente nessa apresentação). Tom Zé passou em torno de uma semana internado em Recife, no Hospital Real Português.

Ano passado lançou o fantástico disco Estudando o Pagode – na Opereta Segregamulher e Amor, no qual faz uma interessante analogia entre a segregação cultural e social da mulher e a segregação de ritmos como o pagode.

Hoje, dia do seu aniversário, lança mais um disco (já estou doidinho pra ouvir), que se chama Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício. Pelo que li no JC hoje, mais um trabalho conceitual, baseado na idéia da omissão dos intelectuais diante da política brasileira, da rejeição dos jovens por músicas de letras longas, e estabelecendo um diálogo com o passado e com o folclore. Palavras do "DJ Tão Zé" (como já se pode ver em foto no seu site, entremeado por fios, elementos de discotecagem – como um vinil - e colorido: “Esse disco tem três ou quatro influências. Uma delas foi o silêncio dos intelectuais diante do abismo causado pela decepção com a esquerda política. Outra influência foi uma pesquisa feita pela MTV que mostrou que os jovens não gostam de músicas com letras longas. O dicionário faliu, e as palavras não falam nada. Em função disso, eu decidi fazer um disco cheio de tartamudeios. É uma maneira de tentar chegar até eles. É um jeito de dizer para eles que o mundo é uma coisa de nossa responsabilidade. Peço que eles abandonem essa posição de irresponsabilidade. Ele é ousado, mas dialoga com o passado. Tudo que faço faz referência ao folclore e à música brasileira. Usei nas faixas células e ambientes musicais dos anos 40”.

Isto é Tom Zé. Será que ele chega aos 140?
















(ouvindo Ave Dor Maria, by Tom Zé)

09 outubro 2006

Transfigurações, borogodás & outras idiossincrasias mais.

Eu sou rebelde porque o mundo quis assim. Porque nunca me trataram com amor. E as pessoas se fecharam para mim.. ” (homenagem à minha indumentária da sexta-feira retrasada (29/09) – ver foto estranha abaixo).

Transfigurem todos. Todos merecem. Show de Cordel do Fogo Encantado, realizado na última sexta-feira (06/10), no Clube Português. Fui só. Sozinho. Tomei minhas duas garrafinhas de vinho lá na frente, tranqüilamente. Encontrei o louco do Jairo e o Walter Maymone. Mas acabei me separando deles. Entrei sozinho no show e continuei até o final (não encontrei mais ninguém). Mas acreditem: me diverti muitíssimo!!! Fiquei que nem um louco, sozinho, pulando, vibrando e muito ao som dos moços de Arcoverde, tentando entrar na roda de pogo, levando sopro de uma moça lá. Pessoas.. entendam bem: assistir a um show de Cordel é uma experiência incrível, não só pela banda em si, mas por tudo que você pode observar como sendo resultado da troca de energia entre eles e o público. É uma catarse das mais lindas que existe. E a confirmação de que o poder de hipnose e libertação da alma que o grupo exerce sobre a platéia vai tomando cada vez proporções maiores. Além do que o grupo tem uma energia incrível, seja pela força de sua percussão, seja pela coesão dos seus arranjos, pela dramaticidade cênica e carisma (sorriso infantil e sincero) do vocalista Lirinha. Tudo tem uma força inimaginável, surpreendente. Alma lavada e transfigurada em mil & uma coisas afins.

Mais um dia de diversão neste final de semana. Sábado (07/10) foi dia de Cinema, Praia e Futebol, com Sir. ROSSI e Del Rey. Essa dobradinha de majestades (Reginaldo Rossi e Roberto Carlos, via Silvério Pessoa e Mombojó + China) vem arrebanhando cada vez mais súditos fiéis.

As portas do Mercado Eufrásio Barbosa (onde aconteceu a festa) demoraram a se abrir, provocando um congestionamento de pessoas e respirações na frente do local. Já estava começando a ficar impraticável transitar por ali (ou até nem mesmo transitar, mas apenas ficar parado) tamanha era quantidade de gente que se espremia, na mais autêntica manifestação de “calor humano”.
Abertas as portas, fila. Fila para entrar. Brasileiros dão um jeito de furá-la (ups! Eu fui um deles). Lá dentro, outra fila. Fila para comprar a fichinha para beber cerveja. Brasileiros dão um jeito de chegar na frente, sem passar pelo suplício dessa fila (mais uma vez, Vila Nova está lá). Tudo isso, para conseguir uma cerveja por R$ 0,50 a menos. Ainda consegui sair no lucro. Só que na presença dessa fila brochante, minha noite foi regada a apenas uma cerveja (perdão.. alguns goles mais surgiram no decorrer da noite.. mas foram poucos).

Show de Sir. ROSSI é sempre aquele clima de gréia, diversão e alto astral. Momentos altos: “dizem que o seu coração voa mais que avião, dizem que o seu amor só tem gosto de féu, vai trair o marido em plena lua-de-mel” (desculpa, mas esqueci o nome da música), ou Garçom, ambas com toda a platéia cantando em coro. Além de Leviana, com um convidado, que subiu ao palco e foi cantar junto com a banda. Meu Deeeeus, quem era o convidado? Imaginem só, era Vila Nova!!! Tudo invenção de Yuri Queiroga (quer dizer, Asdrúbal Chué), que me chamou ao palco. Eu imaginei que isso poderia acontecer (ele me alertou antes sobre isso), e, prevenido que sou, levei a letrinha da música, pra cantar lá. Foi um momento cômico, todo mundo riu muito, principalmente o pessoal dos metais, riram com as expressões corporais que elaborei de improviso para a música (detalhe: fiquei cantando escondidinho, lá atrás). Isto feito, recebi um convite de Silvério (ou de Gaiman.. sei lá mais quem era naquele momento) pra ir ao ensaio, cantar a música com eles lá. Será? Será mais uma dobradinha de LUCIANO MAGNO (nome artístico de “cafajeste pop” que inventaram pra mim na hora) e Sir. ROSSI?

Rapaz.. juro a vocês.. Del Rey tocou, tocou, tocou, tocou.. mas eu nem acompanhei.. o aperto era geral, não conseguia respirar direito. Marmanjos de plantão, prestem bem atenção: sempre, sempre, sempre agradeçam aos meninos do Del Rey pela beleza dessas festas. Nunca vi tanta mulher bonita junta. As menininhas descoladas vão todas lá, gritar histericamente ao ver China (com aquela franjinha estranha) rebolar e fazer “miaaaau” em Negro Gato. Interessantíssimo. Novíssimo isso.


............

Eu ando meio fora de sintonia com coisas e pessoas. Passei nos últimos dias por uma fase de me apegar às pequeníssimas coisas, a gestos, a palavras. Um apego emocional, amoroso, sentimental, uma euforia desmedida, um circular invariável e assimétrico de sensações por todos os meus poros e pela minha alma. Às vezes, sensações como essas podem nos encher de ternura, de encantamento. As pessoas nos despertam isso (mesmo sem querer). Mas, ao mesmo tempo, essas sensações podem nos causar um certo desconforto, uma sensação de idiotice, de tristeza e de engano quando nos deparamos com a possibilidade (e o fato concreto) de que era tudo uma simples ilusão, um meter os pés pelas mãos, um arriscar-se na medida mais improvável da distância e da anti-poesia, quando o mundo real nos diz “não”. Eu quero apenas a beleza dessas palavras, desses gestos, das conversas, do afeto, nada a pedir, a não ser isso. E também uma sinceridade do tamanho de tudo. Não pensemos em mais nada além disso, viu?

Um mundo cinza se cristaliza ao meu redor.

03 outubro 2006

Escrevendo em papéis azuis realidades coloridas de uma vida em preto-e-branco

Exatamente agora, depois de uma súbita vontade de escrever, eis que me surge isso aqui (poeminha recém-ousado):

TÃO SIMPLES

taí..
essa vontade, assim do nada,
e muito de repente,
de remexer-te os cabelos
de saber-te as poesias,
as palavras, os sabores
já me deixa tão feliz
contente, de sorriso fácil,
e os lábios..
esses começam a querer catar os teus
em algum lugar por aí..
sabe-se lá onde..
mas quando souber, que felicidade será..
do tamanho onde cabe tudo e mais um pouco
de nós...
e os braços, querendo desdobrar-se em tantos abraços,
querendo ser um sincero enlace de mil espaços
que transitam entre curvas que tecemos pelo ar
e por entre superfícies que, de nós, se interceptam
se acalentam, se percebem, e também se reconhecem
como sendo parte indissociável do que íamos, então, querer;
é um pouco de delicadeza,
e de sábia alegria
que me adocica as sensações
e te pinta com mil cores
desde a pele até a alma,
essa tua, que me invade,
e tão assim, do nada,
és, então, essa vontade
esse desejo que me arde
que me veio de repente,

e que não quer mais ir embora.

26 setembro 2006

Invasão de quê?

Um bom dia, boa tarde, boa noite pra você (dependendo da hora que você esteja lendo).

Como não poderia deixar de ser, vamos falar do assunto do momento: CICARELLI DANDO O RÁDIO!!! Mas eu nem quero falar sobre a polêmica desse vídeo, o sucesso que ele fez ou coisa do tipo. Eu quero é perguntar uma coisa: alguém acha REALMENTE, DE VERDADE VERDADEIRA, DO FUNDO DO CORAÇÃO, que ela tem o direito de processar youtube, Globo.com, iG, por danos morais, materiais, alegando invasão de privacidade? Tenho conversado com alguns amigos a respeito. Um deles disse que ela estaria no pleno direito de fazê-lo. Essa afirmação dele foi um pouco sem argumentos consistentes. Ele disse apenas que ela deve estar se sentindo constrangida e incomodada, por estar sendo exposta de tal forma, e isso seria motivo suficiente para ela se achar no direito de evocar esse direito. Eu tenho lá minhas dúvidas.

Acredito eu que a partir do momento em que ela está em local PÚBLICO (uma praia, onde circulavam muitas pessoas, inclusive crianças) e faz algo do tipo, acredito que ela perde todo o direito de reivindicar que sua privacidade foi invadida, pois é exatamente o contrário, ela que foi violentamente invasiva e desrespeitosa em relação a quem estava na praia. E nem venham me dizer que o que ela fez foi dentro da água, porque eu digo o seguinte: as preliminares foram muito mais agressivas do que o ato sendo consumado, ou não? Acho que ela deveria, antes de mais nada, ter sossegado um pouco aquela piriquita e ter ido para um motel dos mais caros (afinal, ela tem dinheiro até pra comprar uma ilha só pra ela trepar o resto da vida, em cima do coqueiro, dentro dos matos, na casinha de sapê, etc.), pois ela não é tão inocente (não é mesmo) a ponto de acreditar que numa praia PÚBLICA ela poderia ter feito o que fez e achar que não seria, no mínimo, bisbilhotada. Está na chuva é pra se molhar, Cicarelli!!! Deveria ter atentado para as conseqüências disso, antes de vir se achar no direito de reivindicar alguma coisa. Agora me diz só.. ela quer processar somente essa galera? Porque ela não processa, então, todo o mundo que disponibilizou, divulgou, repassou, comentou esse vídeo (creio que o comentário mais ameno a respeito dela foi o do sugestivo nome de “rapariga”). Garanto que ela ficaria trilhardária se ganhasse todos esses processos, em tribunais de todo o planeta. Tenta Cicarelli? Quem sabe você consegue, né? E aí, depois de ficar mais cheia da grana ainda, sua honra voltará a ser imaculada e impoluta, né não? hahahahahaha.. E eu digo às criancinhas: façam isso EM CASA (ou no motel), viu?

......

E o Hugo Chávez, hein? Sou fã desse cara. É o Chefe de Estado mais desaforado que tem. Tá cagando e andando pros conservadores, pras elites, pra burguesia, pros direitistas, capitalistas, pros outros governos que pensam diferente. Não mede as palavras quando o assunto é emitir opiniões sem a diplomacia protocolar.































Semana passada, na ONU, em discurso, disse que George DJIABO Bush é um demônio e que o púlpito ainda estava cheirando a enxofre exalado pelo presidente ianque (Bush esteve lá na véspera).

E dia desses (mesmo apoiando as decisões bolivianas a respeito da Petrobrás, ou seja, que lascam o Brasil) disse que a sede da ONU deveria ser transferida de Nova Iorque para Brasília (fonte: JC, 25 de setembro de 2006, página9).

O bicho é doido mesmo!

.....

poeminha novo, meio por acaso, para uma linda pessoa (é bem simples, tá?):

PARA LELÊ


lê-ver-
lê-te
lê-é
lê-tão
lê-lindo,
lê-me
lê-traz
lê-sonhos
lê-de
lê-felicidade
lê-e
lê-alegria

ler-te,
de cima abaixo,
de fora adentro,
e por dentro da alma,
é tão bela poesia

essa moça sorri
do tamanho de tudo
e colore esse mundo
com as cores do dia.

(ouvindo Menina rica, by Samba de Coco Raízes de Arcorverde)

20 setembro 2006

Faça!































De acordo com o dicionário Houaiss:

fazer
acepções:

■ verbo 1 produzir através de determinada ação; realizar, obrar transitivo direto

(...)

2 realizar (algo abstrato) transitivo direto e bitransitivo

(...)


Esses são apenas dois significados que a palavra fazer simboliza. Entre tantas outras acepções descritas nos dicionários da vida, gostaria eu de ousar dizer o que vem a ser, de acordo com o que o penso, o sentido de fazer.

O ato de fazer algo não implica necessariamente, e no(s) sentido(s) estrito(s), apenas a ação em si e por si só.

Fazer envolve escolhas, reflexões ou impulsividade, consciência ou pleno desconhecimento, vontade própria ou obrigação, cálculo prévio ou riscos incalculados, mobilização ou acaso, motivação, algumas vezes ousadia e rebeldia, segurança e insegurança, paixão, controle absoluto e descontrole total, necessidade ou capricho, condições favoráveis de atuação, apoio ou desaprovação, etc e tal.

Ou seja, o ato de realizar algo, um gesto, uma escolha, uma atitude, um empreendimento envolve uma série de fatores, muito harmônicos e tantos outros díspares, que se confrontam antes, durante e depois do fazer em si. Fazer algo envolve, algumas vezes, o simples desejo de fazê-lo, de colocar em prática, de realizar uma vontade. Porém, também envolve uma vastidão de conflitos e questionamentos, pelo simples fato de que um simples fazer algo pode nos afetar a vida (em vários âmbitos) e a vida de tantos outros.

O ideal seria que, no mínimo, nós soubéssemos equilibrar a razão e a emoção no momento de uma escolha. Porém, seres humanos imperfeitos que somos, sempre pendemos parcialmente ou totalmente para um único lado. Não sei se isso é bom ou ruim. Bom pelo fato de que acaba nos ensinando a exercitar a nossa capacidade de empreendimento e posterior reflexão acerca das vantagens e desvantagens que aquela atitude acarretou, e de poder, então, buscando o equilíbrio, saber dosar as quantidades de amor e de razão que devem conter cada passo. E ruim pelo fato de que esse aprendizado nem sempre é absorvido de forma agradável. Muitas vezes (e na maioria dela) envolve grande sofrimento, dor e cobranças, tanto suas quanto, principalmente, dos que o cercam.

Há coisas que quero fazer.
Há coisas que dizem que eu devo fazer.
Há coisas que preciso fazer.
Há coisas que amo fazer.

Eu tenho o defeito (ou a virtude) de sempre pender para o lado do amor. Faço as coisas que me apaixonam, que me movem, que me dão sentido, realização e existência nesse mundo. E é justamente por isso que ando tendo uma série de crises, de conflitos, de angústias nos últimos tempos.

Ter feito jornalismo = profissão convencional, “rentável” (isso no pensamento de nossos pais, que acreditam que o cara se forma e vai direto pra Rede Globo, apresentar o Jornal Nacional). Temos que ter um diploma, né? Essa é uma obrigação e uma prestação de contas que devemos dar aos nossos educadores, nossos formadores e à nossa sociedade, tão vil, hipócrita e desrespeitosa com a nossa condição humana.

Fazer um mestrado = ampliação do meu campo de conhecimento. Aprender, conhecer, saber, pesquisar. Isso me interessa. Isso me faz bem. Porém, dentro dessa realidade: aprender mais. Muitas vezes levam para a melhoria das possibilidades de engendrar no mercado de trabalho (o acadêmico, no caso).

Ter que fazer um concurso público = ganhar dinheiro. Necessidade de sobrevivência. Sustento. Única e exclusivamente. É preciso (?).

Música = necessidade para a vida. Alimento. Alma. Dança cósmica. Felicidade. Prazer. Realização como ser humano. É isso que quero, que preciso, que amo. Porém, qual o respaldo que nossa família dá? Digo família de classe média-média, provinciana, machista, que tem uma “ovelha negra” entre si; família que se interessa e acredita ser apenas o essencial dar “casa, comida e plano de saúde” para os seus, e quer perpetuar essa pensamento pequeno-burguês por tantas outras gerações, não se importando com a real necessidade que este seu precisa para ter alegria de viver. Não digo a família classe média altíssima, que dá todos os subsídios para que os seus vivam de música sem se preocupar com cobranças ou com um futuro amargo.

Escrita = é o mesmo caso que a música. Só que ainda num campo mais restrito de ampliação da sua possibilidade de gerar ganhos com essa atividade. Mas me alimenta com a mesma intensidade que a música. É através dela que atravesso-me por completo, deixando vestígios indeléveis desse mundo em mim, e de mim no mundo, tocando, pesando a mão e o poder da alma e do coração no meu próprio pensamento e no de tantos outros. O poder da linguagem é o que nos (in)traduz nesse mundo tão estranho.

Abrir a guarda pelo sentimento que nutre por uma mulher = nesse caso, é um dos mais complicados “fazeres”, pois você se deixa levar ingenuamente pela possibilidade de que um dia essa relação seja recíproca, de que te trará felicidade. Quase nunca é assim, e você se fere, se deixa ficar ridículo, idiota, imbecil, fraco. Seria muito mais fácil que sentimentos tivessem bula, tudo escrito e descrito. Mas quem disse que sentir é fácil? E fico triste.

Morar só = as coisas se encaminham inevitavelmente dessa forma. Como ter condições psicológicas, emocionais, financeiras para isso quando você se recusou a fazer tudo o que lhe daria retorno financeiro para arriscar-se na vida a querer e tentar fazer o que te move, o que te alimenta de amor e felicidade?

Afinal, fazer também é se arriscar.
Viver é se arriscar. E eu prefiro fazer isso com amor.


(ouvindo Quilombo/Tiro de Misericórdia/Escadas da Penha – by Acústico MTV João Bosco)

11 setembro 2006

Ferver é preciso!

Próximos que estamos dos 100 anos do frevo (a completar-se no dia 9 de fevereiro de 2007), os festejos são muitos, as expectativas também, e os projetos em torno do mais genuíno ritmo pernambucano não deixam por menos.

Na próxima quinta (14/09), estréia no Teatro Apolo o espetáculo FERVO, da jornalista e bailarina Valéria Vicente. Um projeto de pesquisa e dança que revisita o frevo em suas origens e faz suas conexões com o presente, porém, abordando-o a partir de um viés nunca antes explorado: a violência no/do frevo. Calma! Não se assustem. O espetáculo não vai fazer uma esculhambação nem reclamar que o frevo é violento ou coisa do tipo. O lance é que se voltarmos no tempo, às origens do ritmo, iremos tomar conhecimento de que a dança e os seus primeiros passos começaram a surgir através do embate entre os capoeiras (os negros) e a polícia, no século XIX. A capoeira, que era misto de luta e dança, era utilizada nesse embate dos negros ao fugirem da polícia. Ou seja, o frevo teve seu nascedouro nessa espécie de tensão social urbana.

O espetáculo retoma o passado constantemente para remeter ao presente, observando as suas influências e características marcantes nesses tempos de hoje. Tanto que há cenas representando rodas de pogo no Galo da Madrugada, ou até mesmo um boneco sendo espancado, linchado, pelos bailarinos. Não é exatamente um espetáculo convencional. Ou seja, não esperem encontrar uma profusão de cores ou de sombrinhas saracoteando pra lá e pra cá, ao som de Vassourinhas. Os bailarinos vestem preto, branco e cinza e a expressão do corpo ao delinear essa violência, essa força, essa pancada, é que conduzirá a tônica do espetáculo.

E para um espetáculo “não-convencional”, a trilha sonora também não deveria ser nada clichê ou lugar-comum. Ao contrário, essa constante conexão entre passado e presente, (vislumbrando o futuro a partir do que se constrói hoje), tradição e (pós)modernidade, típica dos nossos tempos e da nossa veia pulsante de povo antropofágico e criativo, não deveria ter um acompanhamento musical melhor: O coletivo DERRUBAJAZZ.


O DERRUBAJAZZ é uma invenção dos “buliçosos” Silvério Pessoa e Yuri Queiroga. Os dois músicos resolveram se juntar para, a partir de um aparato eletrônico, (re)criar o orgânico, lançando mão dele também para compor suas músicas, ou, como queiram entender melhor, suas astúcias musicais (ou seja, além dos elementos eletrônicos, podemos ouvir instrumentos como bandolins, cellos, cavaquinhos, percussões, violões, etc.). E eu digo “buliçosos” porque todos já sabem, por exemplo, da aptidão do moço Silvério Pessoa para a deglutição e reprocessamento da nossa singularidade nordestina (seja via frevo, forró, coco, embolada, etc) através da tecnologia presente em tempos que dão ao nosso sotaque um ar cada vez mais cibernético, cosmopolita, sem que seja preciso, no entanto, “desfincar” as raízes do chão.

Já o moço Yuri Queiroga, jovem músico e produtor, astucioso e inteligente, é o parceiro de Silvério no DERRUBAJAZZ e na concepção e produção da trilha sonora do espetáculo FERVO.

Com apenas 19 anos, Yuri já tem profícua participação e colaboração na música que se produz aqui em Pernambuco. Além de participar, como produtor, na concepção de faixas de diversos projetos e coletâneas com os mais variados artistas, como músico ele acompanhou (e ainda acompanha alguns deles) Ortinho, Josildo Sá, Lula Queiroga, o próprio Silvério Pessoa, e também fez parte da minha saudosa banda Chocalhos e Badalos (ê, saudade..). Participou numa das faixas da trilha do filme A pessoa é para o que nasce (acompanhando Lenine), além de outras trilhas para documentários. Em participações, deu uma chegada nos discos de China, André Rio, San B, e está participando da produção do próximo disco de Lula Queiroga, Tudo Enzima (isso é apenas um resumo enxutíssimo, pois o currículo do rapaz é extenso).


























Dia desses, conversando via MSN, Yuri me contou como foi o processo de criação da trilha sonora do espetáculo FERVO. No bate-papo, eu sou viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com e Yuri é Tudo de mais tem limite (CONDE)

Aí vão trechos da nossa conversa:

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
as músicas do derrubajazz tão prontas.

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
jajá a gente tá indo buscar

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
são quantas (faixas)?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
10

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
mas vcs fizeram como? desenvolveram temas? pegaram músicas que já existiam? ou fizeram composições novas?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
composições novas

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
baseadas nos ensaios que a gente assistiu

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
a maioria instrumental

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
se vcs viram os ensaios para criar as músicas.. então, esses ensaios eram como, se ainda não tinha música?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
eles usavam outras músicas

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
tipo de antônio nóbrega, uma batida de macumba lá

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
e tinha coisas que eles faziam no silêncio e a gente teve a sacada de botar trilha

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
e tinham as coreografias já prontinhas, né?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
mais ou menos

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
é tudo meio improvisado

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
é experimental

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
só uma música que eles usavam é que continuamos usando

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
que foi MEXE COM TUDO da spokfrevo (SpokFrevo Orquestra)

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
mas aí, nesse caso, vocês recriaram a música ou mantiveram a original?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
a original

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
só essa

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
e nem foi ela inteira

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
foi só um pedaço

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
o resto foi tudo criado

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
esse processo durou, no total, quanto tempo? (contando aí desde o primeiro dia acompanhando os ensaios até hoje, em que a trilha estará pronta).

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
uns dois meses

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
vocês criaram as músicas já observando os ensaios? já anotavam de lá as idéias? ou foi TUDO feito no estúdio?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
anotávamos de lá

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
filmamos dois ensaios

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
e assistiram às filmagens juntos, pra poder ir observando e revendo mais atentamente determinadas partes, pra ir desenvolvendo, né isso?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
é

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
tem uma valsa que silvério compôs no meio do ensaio

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
enquanto ia filmando e os dançarinos desenvolviam os passos (esses em silêncio) silvério cantou a melodia de uma valsa na gravação da câmera

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
e o desenvolvimento dos elementos eletrônicos das músicas foi feito no estúdio ou alguém já começou a criar algo em casa?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
no estúdio, eu fiz algumas coisas antes e já levei prontas pro estúdio.

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
então me conta como foi pra você essa experiência peculiar de trabalhar como músico e produtor já de uma trilha sonora de um espetáculo de pesquisa/dança.. você que é um cara novo e tal.. e já ter essas responsabilidades musicais nas mãos.. o que você tirou dessa experiência?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
eu sempre quis trabalhar com isso, nunca me dediquei a um instrumento só, e sempre me dediquei a ouvir o conjunto todo, daí vi que queria mesmo ser produtor, esse convite pra fazer essa trilha soou pra mim também como um prêmio de tudo que eu vinha pesquisando ouvindo e estudando pra exercer a profissão de produtor musical

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
tirei muita coisa dessa experiência, sempre aprendo muito, e pela primeira vez fiz dez faixas de uma mesma produção, até então só tinha feito coisas pequenas, como uma ou duas faixas pra coletâneas

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
e foi legal também trabalhar com outros músicos, (pra) cada um tenho (um) jeito melhor de se produzir, pro cara se soltar mais e tal..

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
e com silvério também, que tem idéias ótimas, é um bom matador de charadas das músicas

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
adorei trabalhar assim com ele

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
ele tem o fieling apurado de produtor, né?

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
é

Tudo de mais tem limite (CONDE) diz:
ele adivinha fácil o que tava faltando nas músicas

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
ok, meu filho.

viLa Nova, L. http://umacaixinhadecoisas.blogspot.com diz:
é isso aê!!!!

...

Yuri também me contou que as faixas serão disponibilizadas para o público em geral (provalmente, via internet).

Além de Silvério Pessoa e Yuri Queiroga, participaram das gravações da trilha sonora do espetáculo FERVO os músicos Maíra Macedo (bambolim), Elias Paulino (cavaquinho), André Julião (acordeom), Israel Silva (baixo), Renato Bandeira (violão), Eduardo Braga (guitarra), Fabiano Menezez (violoncelo), Pi-R (piano e efeitos), Wilson Farias (percussão) e Luís Carlos (percussão).

O espetáculo, que estréia nessa quinta (14/09), poderá ser visto todas as quintas e sextas, até o dia 29 deste mês.

Agora, é só ir conferir:

ESPETÁCULO FERVO (com trilha sonora do coletivo DERRUBA JAZZ)
De 14 a 29 de setembro de 2006 quintas - 20h / sextas - 21h
Teatro Apolo – rua do Apolo, n.º 121 – Bairro de Recife

Preço: R$ 10,00 (inteira) – R$ 5,00 (estudante)

09 setembro 2006

Cê transfigura?



Há tempos que ando meio ausente da caixinha. Por “n” motivos: preguiça acho que foi o principal deles. Dei-me o direito da preguiça de escrever.. hehehehehe.. afinal, ninguém quer saber o tempo todo o que eu ando pensando, né? Então, entramos num acordo tácito. Fechado!

Além disso, nessa última semana e meia foi que se manifestou uma imensidão de coisas, de viver muito mais o mundo. Coisas mil pra pensar, fazer, chorar, sorrir, curtir. Aí, nem tive tempo direito de raciocinar e materializar (ou digitalizar) em letras as coisas que estavam se passando.

Mas adianto que teremos coisas boas por aí: muita música e poesia pro meu povo. Projetos que darão seu pontapé inicial a partir de agora. A semeadura começa daqui a pouco.. a colheita virá ano que vem. Depois conto mais.

Enquanto isso, vamos de informação:

O Cordel do Fogo Encantado está lançando novo CD, que se chama Transfiguração. O terceiro álbum da banda (produzido por Carlos Eduardo Miranda), segundo confirma o vocalista, Lirinha, vem ponteado por um maior apuro no aspecto melódico das canções, diminuindo um pouco o peso da percussão, assim como da conseqüente utilização da forte presença da umbanda nas letras e também da marcante característica de poesias recitadas. As canções (literalmente “cantadas”) ganham maior destaque.


Partindo disso, os instrumentistas (como o violonista Clayton Barros, por exemplo) ganharam uma maior liberdade para a utilização de instrumentos antes nunca utilizados no som da banda, como um órgão Hammond.

Em Recife, o Cordel faz show de lançamento do CD Transfiguração no dia 6 de outubro, no Clube Português.

...

Caetano Veloso também vem de CD novo. é o nome do 40.º disco do baiano. Com 12 músicas inéditas, tem como mote estético o rock. É rock mesmo. No estado de espírito que o rock sugere. A princípio, Caetano tinha como projeto, além de gravar um disco só de sambas inéditos de sua autoria, também unir-se ao guitarrista Pedro Sá para gravar um disco heterônimo, no qual ele teria a voz modificada, pra não ser reconhecido como CAETANO VELOSO (algo meio Gorilazz). Mas aí, ambos os projetos acabaram não se concretizando, e tudo virou “rocha”.

O cantor e compositor também fala que nunca esteve tão satisfeito com o resultado de um disco seu, tanto no acabamento do CD como com a impressão a respeito da voz dele, gravada.

(que foi produzido por Moreno Veloso e Pedro Sá) é um disco enxuto (com apenas bateria, guitarra e baixo – além de um pequena participação de um teclado), que traz à tona um Caetano cada mais pessoal e impessoal.

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Eu tentei colocar o link das matérias que saíram no JC sobre os discos supracitados, mas como é conteúdo exclusivo pra assinantes da UOL, exigia login e senha. Eu ainda não sei como burlar estas coisas, pra poder mantê-los melhor informados. Desculpem-me!!! Mas se não houver problema para as pessoas lerem, posso postá-las (as matérias) no corpo do texto posteriormente, ok?

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VOVÓ, VENHA VER: NÃO QUERO SER BUROCRÁTICO!!!

“... um pouco de sol, de ar...”

(ouvindo Arrête là, Menina – by Cibelle e Seu Jorge)