O título acima é auto-explicativo.
Em 2005, quando conclui minha monografia, intitulada A Tropicália no século XXI: as reverberações do movimento tropicalista na contemporaneidade, eu afirmava, entre outras coisas, que a Tropicália, ou a sua intervenção estética, as suas atitudes como manifestação artística e cultural encontravam ecos nos tempos atuais a partir, também, do flerte que seus artífices sempre mantiveram com a cultura de massa, com o kitsch, com o tido como de “mal gosto” ou "inferior", e, também, erroneamente, classificado como “subcultura”.
Pois bem.. isso pode muito bem ser comprovado ao longo dos anos, quando, por exemplo, podemos observar Caetano e Gil em intenso e caloroso diálogo artístico com essas tendências tidas como “menores”: Caetano, no festival Phono 73, se apresentou cantando uma música com Odair José, o rei das empregadas, das prostitutas e contra a “pílula”. E também, além de outras coisas, sempre falou abertamente da sua paixão pela axé music, já gravou (no CD Noites do Norte ao vivo) o funk Tapinha não Dói, músicas de Peninha (Sonhos e Sozinho) e de Fernando Mendes (Você não me Ensinou a te Esquecer). O ministro Gilberto Gil já declarou da sua simpatia pela (ex)dupla Sandy e Júnior e já cantou com Ivete Sangalo o refrão “chupa toda”.
E por esses mesmos motivos, ao longo dos anos, muitas vezes eles foram achincalhados pela crítica, por grande parte dos “intelectuais” e até por muitos fãs, sendo atitudes como estas classificadas como grotescas, de “mercenários vendidos” e outros adjetivos não muito gentis. Porém, continuaram prosseguindo com essa prática tipicamente tropicalista, bastante conscientes, fiéis e coerentes às posturas defendidas por eles desde 1967.
Fico feliz em saber que essa minha tese continua firme, consistente e atual. Agora, com outro tropicalista dando mostras de que esse diálogo com a cultura de massa, além de verdadeiro, é assaz inspirador e produtivo.
Descobri ontem um vídeo no youtube em que, numa entrevista, Tom Zé fala da importância do funk carioca (em especial aquele do refrão “tô ficando atoladinha”) para a concepção do seu mais recente disco, o Danç-Êh-Sá – A Dança dos Herdeiros do Sacrifício.
E ele fala dessa importância pra ele com embasamentos teóricos, muitíssimo bem fundamentados tecnicamente, musicalmente falando. Classificando até esse refrão como “microtonal, pluri-semiótico e meta-refrão”. Nossa!!!
Eis o vídeo:
Bem.. já sei muito bem que os “pseudo-pop-cult-intelectuóides” de plantão serão complacentes e permissivos, por se tratar do nosso genial Tom Zé louvando a complexidade musical desse funk. Porém, se fossem Caetano ou Gil a dizer isso, estes seriam estrondosamente vaiados, sem dó nem piedade, quiçá até sem nem direito a se explicar. E sabe por quê? Muito menos pelo fato de esses “pseudo-pop, etc e tal” entenderem de fato a importância dessas palavras de Tom Zé, mas muitíssimo mais pelo fato de que Tom Zé sempre teve um caráter outsider e underground dentro do tropicalismo (entrou até em ostracismo durante anos) e, por isso mesmo, que desde a metade dos anos 90 pra cá que gostar de Tom Zé tornou-se algo cult. Gostar do que pouquíssimos gostam (ou seja, fazer parte de uma reduzida platéia seletiva) é cult.
Pois, então, coloquemos tudo isso no mesmo liquidificador: Peninha, Fernando Mendes, Odair José, o funk carioca, Ivete Sangalo, Tom Zé, Gil, Caetano, Beatles, Banda de Pífanos de Caruaru, música erudita e o que mais der na telha.
Cada ingrediente desses é uma faceta de um Brasil imenso, complexo e contraditório, que avança em idéias, em tecnologia, em cultura, porém ainda preso a moldes arcaicos (seja tradicionalmente, mercadologicamente, religiosamente, moralmente, etc.). E foi esse quadro extremamente conflituoso que a Tropicália escancarou no fim dos anos 60: um Brasil que não era só banquinho, violão, pandeiro e música de protesto. E sim um Brasil que, além disso, era samba, baião, afoxé, rock’n’roll, Chacrinha, Vicente Celestino, Carmen Miranda, carnaval, etc.
Esse tipo de música que se costuma dizer de baixo nível é parte também desse Brasil, mesmo que seja a parte que tentamos evitar, fechar os olhos perante ela. É a periferia, é o morro, a favela, que quando não tem educação, lazer, e por muitas vezes lhe é negada a dignidade, faz música. E essa música é manifestação autêntica dessa cultura existente em nosso território. Quando se diz “tô ficando atoladinha” e os “intelectuóides” se mostram horrorizados com isso, esquecesse-se que muito mais putarias, e mais “horrendas” até, são praticadas por esses mesmos críticos, seja por debaixo dos panos ou não. Uma moral falida, uma concepção cultural ingênua, que não enxerga, por exemplo, que o samba, hoje louvado por tantos, teve seus tempos de “funk” até metade do século XX.
E é justamente esse Brasil (costura de tantos brasis) que a Tropicália fez questão de mostrar, e com a qual fez questão de dialogar e de se utilizar das suas qualidades pra construir um mosaico incrivelmente rico, onde o pobre daqui é muito diferente do de muitos países, desses que alimentam o ódio social entre classes.. o pobre daqui faz música também, porém com alegria e espontaneidade, que não deve ser renegada.
E é justamente desse Brasil que eu tenho orgulho de dizer que “TÔ FICANDO ATOLADINHA” foi importante para a concepção de Danç-Êh-Sá, disco de Tom Zé, que é tão aclamado pelos “pseudo-pop-cult-intelectuóides”. Essa eles vão ter que engolir!!!
E por isso que eu digo: “don’t call me no, please.. don’t call me no, I go.. come on! come on! Come on! come on!
P.S.: Além de tudo isso, esse post de hoje foi escrito ao som de Creep, do Radiohead. (sincrético pacas, não? hahahaha)
04 dezembro 2007
tom zé e o funk carioca
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leonardo vila nova
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27 outubro 2006
A Banda Tropicalista do Duprat
"porque é made, made, made.. made in brazil" (Tom Zé) a banda era boa
com duprat na batuta
; que tropicália era essa?
eram hippies orquestrações
& intermezzos
dissonâncias “pop-cretas”
e antropofágicas disjunções
de um Brasil semi-analfabeto
, ingenuamente cosmopolita
& mais que tudo isso:
era subverter-se em notas, acordes
rock’n’bossa’n’roll e baiões,
frevos na ponta dos dedos
e toda aquela parafernália
que se chamava
aquela banda
de beatles e de pifes
de cacos e "descanções"
da menina ruiva (os meninos de mutações),
à black power
do magricelo
ao tabaréu
e também do pretinho
todos tocavam chiclete com banana
na banda, aquela,
a tropicalista,
sob a batuta
do duprat.
(eu quero bem mais peidos alucinógenos)
Texto em homenagem ao maestro tropicalista, Rogério Duprat, falecido ontem (26/10), em São Paulo, aos 74 anos.
Matéria da UOL a respeito do falecimentro de Duprat:
Morreu por volta das 17h desta quinta-feira (26), em São Paulo, o maestro Rogério Duprat. O músico de 74 anos estava internado desde o dia 10 de outubro no hospital Premier, na zona sul de São Paulo, onde recebia cuidados paliativos.
Duprat sofria do mal de Alzheimer e também tinha câncer na bexiga, que nos últimos dias acabou causando insuficiência renal, de acordo com a médica Maria Goretti Maciel, diretora clínica do hospital.
O maestro será velado no Museu da Imagem e do Som (MIS), na região dos Jardins. Seu corpo será cremado na sexta-feira no crematório da Vila Alpina, zona leste de São Paulo.
Duprat é conhecido principalmente por seu trabalho nas orquestrações do disco Tropicália, de 1968, que contava com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Os Mutantes e Nara Leão.
Nascido no Rio de Janeiro em 1932, Duprat mudou-se para São Paulo em 1955. Ainda jovem estudou violão e cavaquinho além de tocar gaita. Mais tarde entrou no meio erudito e foi um dos fundadores da Orquestra de Câmara de São Paulo. Nos anos 60, o maestro se aproximou de artistas populares, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, para quem compôs o arranjo da música "Domingo no Parque".
Também trabalhou com nomes como Chico Buarque e Jorge Ben Jor, mas uma de suas parcerias mais conhecidas foi com a banda Os Mutantes, para quem arranjou diversos discos.
Depois de um período longe da música, devido a problemas de audição, o maestro voltou a trabalhar com arranjos na década de 90.
Música Nova
Ideólogo responsável por um dos poucos manifestos musicais autênticos realizados na América Latina, Rogério Duprat utilizou métodos radicais para criar uma nova frente cultural no país. O movimento batizado como "Música Nova Brasileira" resgatava os ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 e pretendia "internacionalizar a vanguarda brasileira". Duprat vinha acompanhado pelos músicos intelectuais Gilberto Mendes, Júlio Medaglia, Régis Duprat, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen.
"Sem forma revolucionária não há arte revolucionária" é a citação que termina o manifesto publicado em 1963. Desde então eles se empenharam em quebrar as amarras acadêmicas na cultura e unir o erudito ao popular, como Duprat fez durante sua vida, o que fez dele um dos principais personagens da MPB.
(ouvindo Canção para Inglês ver/Chiquita Bacana, by A Banda Tropicalista do Duprat, com Os Mutantes)
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leonardo vila nova
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11 outubro 2006
Parabéns, voinho!!!
“veja que beleza, em diversas cores.. veja que beleza.. em vários sabores, a burrice está na mesa (...)” (Tom Zé)Tropicalista cuca boa e nova!!!
Salves, salves, salves!!!
Começamos hoje uma quarta-feira muito mais feliz, muito mais interessante para a música brasileira. Hoje, 11 de outubro, é aniversário de 70 anos de Antônio José Santana Martins, ou Tom Zé, como é conhecido no Brasil desde 1968, quando lançou-se de vez no mercado fonográfico brasileiro.
Confesso-me estar um pouco tenso ao escrever alguma coisa sobre este cidadão, uma das maiores (se não a maior) referência musical de criatividade, singularidade, genialidade, inventividade, irreverência, rebeldia e outros adjetivos mais que temos no Brasil. É uma responsabilidade muito grande, e creio também ser muito complexo, conseguir definir da forma mais adequada este baiano de Irará, que conseguiu transformar rapadura, farinha, seca e agrura em matéria-prima substanciosa para uma das músicas mais cosmopolitas e inteligentes de que se tem conhecimento hoje em dia.
Não é todo o dia que um senhor de 70 anos faz uma participação no novo CD do grupo Cake, ou já fez um show com o grupo Tortoise.Tom Zé foi um dos alicerces fundamentais para o surgimento da Tropicália. Porém, foi ele o mais outsider do grupo. Porém, não no sentido de estar por fora, e sim de estar correndo por fora, por ser ele dotado de uma singularidade tamanha que chegou a ser (e ainda o é) o mais tropicalista de todos, no cerne da rebeldia que aquilo poderia significar, e o menos tropicalista deles, pois optou por seguir o sentido contrário da corrente, que era o da popularização/massificação e facilidade totais; ele seguiu um caminho não percorrido, tornando-se uma bela e inspirada aberração construída e edificada dentro das próprias deficiências (como ele próprio define), transformando-as em grandes idéias, em grandes obras, capazes de sair das amarras de qualquer convenção, conceito e definição, conservando ao longo de todos esses 70 anos um vigor infantil, uma rebeldia adolescente (sempre indignação) e uma sabedoria que a idade e a experiência de vida lhe puderam conferir.
Tom Zé disse que sua primeira experiência musical foi ao tentar tocar violão e cantar para uma moça, ainda em Irará, na juventude. Disse que foi traumatizante. Um bloqueio, uma travação o deixaram totalmente inerte, apático, entalado. Nunca teve beleza, talento para tocar ou voz bonita para ser consagrado como um grande cantor, daqueles que encantam belas moças. Foi daí que partiu para seguir o caminho de desconstruir-se e utilizar com destreza, vontade, inteligência e sensibilidade tudo o que poderia se tornar um obstáculo para seu progresso, usando a seu favor. E me parece que deu certo. Estreou para o público brasileiro no IV Festival de MPB da TV Record, em 1968, cantando a música campeã São, São Paulo, meu Amor, de sua autoria.
Daí pra frente fez discos memoráveis, como Todos os Olhos (cuja capa era um ânus, com uma bola de gude introduzida, isso em pleno governo Médici, 1973) e Estudando o Samba, em 1976.
Apesar da inconteste genialidade, da metade dos anos 70 até o final dos anos 80, Tom Zé entra para o ostracismo, longo e doloroso, que duraria 17 anos de esquecimento e tristeza, para um artista que sempre viveu do exercitar de sua mente irrequieta (durante esse período, gravou, em 1986, um disco genialíssimo, chamado Nave Maria).
Foi redescoberto, já desenganado e quase que abandonando de vez o ofício, por David Byrne (ex-Talking Heads). É através do selo Luaka Bop, de David Byrne, que é lançado, em 1990, nos E.U.A., The Best of Tom Zé (ou "Tãn Zi", como é chamado lá), uma coletânea de sua obra. A partir daí passou a ser aclamado pela crítica ianque. Inclusive ganha um prêmio chamado “Prêmio de Criatividade”, em Colorado, do qual participam músicos eruditos e/ou de vanguarda do mundo todo.No ano seguinte, grava o excelente The Hips of Tradition.
Em 1999, é consagrado pelo público brasileiro (e jovem) no Abril pro Rock, onde ele diz ter nascido novamente.
Em 2001, lança Jogos de Armar. Sempre inovando, traz dois CDs, um contendo as músicas, e o outro com fragmentos das músicas, espalhados, separados, sugerindo ao público que remonte esses pedaços e construa novas músicas, podendo se tornar, assim, um parceiro de Tom Zé.
Em 2002, três anos depois de ter renascido, no mesmo Abril pro Rock ele quase morre, ao ter um infarto após o seu show (eu estava presente nessa apresentação). Tom Zé passou em torno de uma semana internado em Recife, no Hospital Real Português.
Ano passado lançou o fantástico disco Estudando o Pagode – na Opereta Segregamulher e Amor, no qual faz uma interessante analogia entre a segregação cultural e social da mulher e a segregação de ritmos como o pagode. Hoje, dia do seu aniversário, lança mais um disco (já estou doidinho pra ouvir), que se chama Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício. Pelo que li no JC hoje, mais um trabalho conceitual, baseado na idéia da omissão dos intelectuais diante da política brasileira, da rejeição dos jovens por músicas de letras longas, e estabelecendo um diálogo com o passado e com o folclore. Palavras do "DJ Tão Zé" (como já se pode ver em foto no seu site, entremeado por fios, elementos de discotecagem – como um vinil - e colorido: “Esse disco tem três ou quatro influências. Uma delas foi o silêncio dos intelectuais diante do abismo causado pela decepção com a esquerda política. Outra influência foi uma pesquisa feita pela MTV que mostrou que os jovens não gostam de músicas com letras longas. O dicionário faliu, e as palavras não falam nada. Em função disso, eu decidi fazer um disco cheio de tartamudeios. É uma maneira de tentar chegar até eles. É um jeito de dizer para eles que o mundo é uma coisa de nossa responsabilidade. Peço que eles abandonem essa posição de irresponsabilidade. Ele é ousado, mas dialoga com o passado. Tudo que faço faz referência ao folclore e à música brasileira. Usei nas faixas células e ambientes musicais dos anos 40”.
Isto é Tom Zé. Será que ele chega aos 140?
(ouvindo Ave Dor Maria, by Tom Zé)
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leonardo vila nova
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08 agosto 2006
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é..
É com essa frase que faço a minha homenagem ao cantor, compositor e pensador crítico contemporâneo Caetano Emanuel Viana Teles Velloso, ou Caetano Veloso, para os mais íntimos (no caso, o Brasil inteiro), que ontem (07 de agosto) completou 64 anos de vida. O leonino, nascido em Santo Amaro da Purificação (cidade pertencente ao Recôncavo Baiano) prepara-se para lançar mais um novo CD, intitulado Cê, produzido pelo filho Moreno Veloso e pelo guitarrista Pedro Sá.
Caetano é daqueles que ou se ama ou se odeia (eu me enquadro na primeira opção). Tudo isso por causa do seu comportamento e opiniões críticas imprevisíveis (e nem sempre palatáveis) a respeito dos mais diversos assuntos: cultura, música, filosofia, política, etc. Por nem sempre estar alinhado com o lugar comum do que instituem os grandes “intelectuais” como, razoavelmente, ponderado e coerente com o que “deveria” pensar um intelectual residente num país de 3.º mundo, assim provocando (conscientemente ou não) polêmicas e, logo após, as diluindo no tempo e no espaço, é que Caetano foi ganhando seguidores e inimigos (confessos ou não) ao longo de 4 décadas de carreira. Caetano surpreende (não sei se hoje nem tanto, pois creio que todos já se acostumaram) quando diz gostar do grupo Nação Zumbi da mesma forma como também elogia o grupo de “pagodaxé” Harmonia do Samba.
Caetano, junto a tantos, como Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa, Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Capinam, Torquato Neto, Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães, Raul Córdula, Celso Marconi, etc, etc, etc, foi um dos artífices de um movimento musical, cultural, comportamental que sacudiu o final dos anos 60 e que colocou o Brasil diante das inúmeras possibilidades de “deglutição e reprocessamento” (adotando aqui um termo apropriado para a questão antropofágica) de seus vários “brasis”. Movimento esse que andou na contramão de tudo o que se fazia na época como movimento musical bem alimentado e bem nutrido intelectualmente e de forma engajada em relação ao regime ditatorial que vivia o país (o referencial na época eram as músicas de protestos, produzidas por artistas de esquerda, alinhados com a juventude “universotária” paulista), ao assimilar guitarras elétricas, sintetizadores, músicas de alto teor visual às batidas dos pandeiros, berimbaus, unindo o samba ao rock’n’roll, os Beatles à Banda de Pífanos de Caruaru, o que possibilitou uma reavaliação e abertura maior de possibilidades à música brasileira que passou a ser feita a partir daí. Por causa de todo esse rebuliço, ele e Gil foram “gentilmente convidados a darem o fora do país”, indo viver um Londres, num exílio que durou em torno de 2 anos. Desde antes daí, também após voltar da Inglaterra, como até hoje, Caetano vem mantendo embate frenético com crítica e público. Diante disso, entra e sai de todas as estruturas, de peito aberto, alma de artista, dando a cara pra bater e devolvendo o tapa sempre que acha necessário. Vai do rock’n’roll reprocessado (Come as You Are) à música brega (Você não me ensinou a te esquecer) como quem vai na esquina, comprar pão, e volta tranqüilo e sorridente pra casa.
Mesmo assim, despertando ódio de tantos, é inegável a importância desse homem para a nossa cultura. É justamente através suas “contradicções” (parafraseando o mestre Jomard Muniz de Britto) que Caetano alimenta o jogo das dialéticas, introjeta veneno nas veias onde só corre um leite manso, sacoleja a cabeça de tantos, seja para concordar como para fazer pensar nas suas opiniões, criticando-as.
É por essas e outras que Caetano Veloso é capa da Revista Cult desse mês. Numa entrevista que está disponível na Internet (segue o link abaixo), ele fala sobre racismo, Estados Unidos, “antiamericanismo”, crítica, intelecutalidade, literatura, entre outras amenidades.
Encerro essa “ODE” a Caetano Veloso com uma frase dita por ele nessa entrevista e com a qual concordo completamente:
“Já escrevi, e reafirmo agora, que o Brasil precisa tornar-se o mais diferente possível de si mesmo para poder se encontrar.”
Link da entrevista: http://revistacult.uol.com.br/website/entrevista.asp?edtCode=5CE31EF8-D245-4ACF-8449-9F6C2C3ECC1F&nwsCode=DC91FA2E-0294-4245-9EC0-8D11CE37657A
(ouvindo Pássaro Proibido – by Doces Bárbaros)
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